Em Bissau, o PAIGC quer Nino de volta. Os principais dirigentes do partido que sustenta o governo indicaram que vão promover a realização de um novo Congresso do PAIGC, de forma a afastar Carlos Gomes Júnior da liderança da maior força política guineense, de modo a dar espaço para o regresso de Nino ao poder.
Assumindo-se todos como apoiantes de "Nino" Vieira, que regressou quinta-feira à Guiné-Bissau após seis anos de exílio em Portugal, Carlos Gomes, Cipriano Cassamá, Hélder Proença e Pina indicaram que estão "fora de causa" quer novas eleições legislativas, quer a formação de um governo de iniciativa presidencial. "O PAIGC, como grande partido, tem a capacidade para chegar a um consenso e formar um novo governo", disse Hélder Proença.
Note-se que Nino preparou este regresso com o apoio do governo da Guiné Conakri, um país vizinho e que já o tinha apoiado com tropas durante a guerra civil. De resto, Nino chegou agora a Bissau a bordo de um helicóptero da força aérea de Conakri, num voo considerado ilegal e "flagrante violação do espaço aéreo" guineense, segundo comunicado do governo de Bissau. O helicóptero aterrou, também sem autorização, num estádio de futebol da capital.
Muitas personalidades políticas e militares ligadas ao regime de "Nino" Vieira (1980/98), que desde 1999 se mantinham na "sombra", ressurgiram com a chegada do ex-presidente, com o intuito de o "convencer" a candidatar-se às eleições presidenciais de 19 de Junho.
Entre essas figuras destacam-se João Cardoso, "braço-direito" de Nino na presidência, João Monteiro, antigo chefe dos Serviços Secretos (e acusado de axctos de tortura a adversários políticos do regime de Nino), Carlos Domingos Gomes (pai do actual primeiro-ministro, com quem mantém um corte de relações desde 1994) e ainda vários dirigentes "históricos" do PAIGC.
Por outro lado, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) da Guiné-Bissau, general Tagmé Na Waie, reuniu-se já três vezes com "Nino" Vieira, sendo visível o entendimento manifestado entre dois rivais do passado. Lembro que Tagmé, antes da guerra civil, vivia como um indigente e destilava ódio por Nino a quem acusava de o ter mandado torturar na prisão da Ilha das Galinhas, nos Bijagós. Tagmé, um guineense animista, foi capado no decorrer dessas torturas e, durante a guerra, jurava que se apanhasse Nino que lhe ia encher o peito de balas.
Nem "Nino" Vieira, nem Tagmé Na Waie falaram à imprensa, o mesmo sucedendo com o embaixador de Portugal em Bissau, José Manuel Pais Moreira, que se reuniu no hotel com o antigo presidente do país ao longo de mais de duas horas.
Antes de regressar a Conacri, de onde seguirá para Lisboa, em princípio via Dacar, "Nino" Vieira tem ainda um encontro previsto com Kumba Ialá, também ex-presidente guineense, deposto no golpe de Estado de Setembro de 2003. Os dois ex-presidentes cruzaram-se sexta-feira no hotel onde "Nino" Vieira está hospedado, tendo mantido uma conversa animada de cerca de cinco minutos.
Nino deve abandonar Bissau hoje, sábado, dia 9 de Abril.