A última das guerras pelo petróleo será, provavelmente, entre a China e os Estados Unidos. Haverá outras, pelo domínio dos recursos de água potável, pela posse da terra arável, mas isso são contas de outro rosário.

A invasão do Iraque e as guerras que se aproximam têm a motivação na necessidade dos Estados Unidos e seus aliados controlarem as fontes energéticas mundiais, nomeadamente o petróleo.
Mas, num futuro não muito longínquo, a China vai desempenhar um papel muito interventivo nessa disputa. As necessidades energéticas chinesas vão muito para além da questão económica, como de resto acontece com as outras potências mundiais. A China está num processo acelerado de desenvolvimento industrial, de modernização tecnológica, está a tentar fazer em poucos anos o que a Europa e os Estados Unidos levaram 100 anos a fazer. E o problema é que a China é metade do Mundo e tem mais de metade da população mundial. De repente, metade do planeta começou a consumir recursos e isso não estava programado pelos estrategas ocidentais, acho eu. Apesar de alguns avisos sobre o que iria acontecer “quando a China acordar”, pensou-se que esse sono se iria prolongar por muito mais tempo. Mas os tipos acordaram, agora. Desde 1995 até hoje, as importações de petróleo chinesas duplicaram. Hoje, o país consome 7 milhões de barris por dia, mais do que o Japão mas, ainda assim, cerca de 1/3 do que consome a potência imperial, os EUA.
A crescente necessidade de obter energia para o seu esforço industrializante vai levar a China a entrar em confronto com os concorrentes. Mas, antes disso, o mundo vai continuar a ver o preço das matérias-primas a crescer ininterruptamente e, com isso, quem se vão lixar são os países mais pobres e mais dependentes.
Para já, as multinacionais estão contentíssimas com o acordar chinês. É que a China não consome só petróleo, mas também cimento, alumínio, produtos químicos, aço, carvão, produtos Cartier e automóveis de todas as marcas, modelos e proveniências. O negócio vai bem, mas o planeta está a ficar exaurido de recursos…
As fricções (nada amorosas) entre chineses e americanos vão dar-se, obviamente, no Médio Oriente, fonte de 70% do petróleo importado pela China. Vamos começar a ver, dentro de pouco tempo, os chineses a tentarem garantir a segurança dos seus petroleiros nos pontos sensíveis, hoje controlados pelos ocidentais: os estreitos de Ormuz e Malaca. Vamos começar a ver a China a tentar assumir controlo político sobre territórios cruzados pelos oleodutos que mais lhe interessarem, caso dos provenientes da Rússia ou do Cáucaso. Em África e na América do Sul, a China já tem em curso fortíssimas ofensivas diplomáticas, com contornos de cooperação económica beneficiando governos como os de Angola, Nigéria, São Tomé, Sudão ou a Venezuela.
Hoje, por exemplo, já se joga uma espécie de xadrez a três, entre as frotas navais russas, chinesas e norte-americanas, mas toda a geopolítica está a mudar face ao surgimento deste novo actor. A recente aproximação da China ao Irão é exemplo disso. Face a um elemento perturbador como é o Irão, a China vai jogar esse peão contra o seu maior inimigo. Os EUA que se cuidem, porque já não é possível interromper o crescimento chinês nem diminuir o seu apetite por um papel determinante na globalização.
O confronto com os americanos é inevitável. A China vai tentar fragilizar alianças antigas e status quo estabelecidos que beneficiam os ocidentais. Vai ser assim com a Rússia, de onde a China quer importar cada vez mais petróleo, vai ser assim com a Indonésia e a Tailândia por causa do controlo sobre as rotas marítimas que ligam o Médio Oriente e o Mar da China. A China vai amancebar-se com os inimigos de Washington: Irão, Venezuela, Cuba. Vai enfrentar pela força, se for preciso, quem não quiser aceitar a sua liderança no “quintal”, como será o caso do Japão com quem a China tem vários conflitos latentes.
Se as lições da História servissem de alguma coisa, a China e os EUA iriam cooperar em vez de competir. Mas não é natural que isso aconteça. O mais natural é que se matem uns aos outros. O pior, para nós, será conseguir distância suficiente para não apanharmos com os estilhaços.